quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

ADIN QUESTIONA DOAÇÕES DE EMPRESAS PARA CAMPANHAS POLÍTICAS

STF começa julgar ação de inconstitucionalidade (ADIN) da OAB que questiona doações de empresas às campanhas políticas.
MARCELO COELHO - DE SÃO PAULO - 12/12/2013 - 03h50 -http://www1.folha.uol.com.br/poder/ 
Empresas podem fazer doações a candidatos? Pela legislação atual, sim. O sistema traz distorções? Com certeza.
Dos R$ 6 bilhões arrecadados nas eleições de 2010, 97% vieram de contribuições feitas por pessoas jurídicas. Pesquisas demonstram, ademais, que, quanto mais dinheiro recebe um candidato, maior sua chance de se eleger. O custo médio de um deputado federal está em R$ 1 milhão, e o de um senador é quatro vezes mais.
A exposição foi feita em menos de dez minutos, pela advogada Aline Osório, no início da sessão de ontem do Supremo Tribunal Federal.
Seria o caso de propor uma reforma política no Congresso, para diminuir ou regular os gastos eleitorais? Para outro orador da sessão de ontem, isso seria irrealista: a cobra nunca morde a mão que a alimenta.
O autor da frase, bastante expressiva mas sem maior relevância jurídica, foi Bruno Collares Alves, falando em nome do PSTU. Assim como Aline Osório, ele era um dos "amici curiae", termo que designa partes interessadas num processo, às quais é concedido o direito de fazer sustentação num tribunal.
Outros debatedores não recorreram a raciocínio tão extremado. Raimundo Aragão falou em nome do Movimento Contra a Corrupção, que agrega associações recém-saídas do sucesso obtido com a aprovação da Lei da Ficha Limpa.
Ao contrário do que aconteceu na Ficha Limpa, explicou, torna-se desnecessário propor uma nova lei para proibir doações de empresas. Basta fazer o que já está previsto na Carta de 1988.
Era também este o argumento da Ordem dos Advogados do Brasil, que propôs a ação no Supremo Tribunal. Afinal, a Constituição estabelece que todo poder emana do povo. Povo nada mais é que o conjunto dos indivíduos, dos cidadãos.
Uma empresa, uma pessoa jurídica, não é um indivíduo. Não tem o direito de votar, por exemplo. Não deveria ter, por conseguinte, o direito de financiar campanhas políticas. Que um empresário faça isso é uma coisa. Que uma pessoa jurídica faça o mesmo --isso seria inconstitucional. Revogue-se, portanto, a lei que permite esse tipo de coisa.
No campo oposto, estava a Advocacia Geral da União. A sustentação de Luís Inácio Adams foi a mais fraca e desconjuntada da tarde. O advogado-geral lembrou que, em grandes democracias como a Inglaterra e os Estados Unidos, era permitida a doação de empresas a candidatos.
Joaquim Barbosa corrigiu na hora a afirmação: isso é proibido nos EUA. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e mais tarde Luiz Fux, reforçaram o ponto de Barbosa.
O advogado-geral tentou outros caminhos. Vejam, a igualdade absoluta não existe. Um empresário tem mais dinheiro a doar do que um assalariado qualquer. Partidos com mais votos têm mais tempo na televisão. Um candidato como Enéas teve ampla votação com mínimos recursos...
O presidente do STF não conseguia engolir tais raciocínios. A questão era puramente constitucional: pessoas jurídicas têm direitos políticos, como o de financiar um candidato, ou não? Barbosa apoiava a tese da OAB.
Luiz Fux, relator do processo, foi na mesma linha. Condenou o financiamento empresarial de todos os ângulos possíveis, alternando entusiasmo e técnica, empirismo prático e teoria alemã.
Nenhum ponto constitucional seria atingido pela proibição desse financiamento, acrescentou. Fux ganhou um aparte favorável de Dias Toffoli, que mal se continha ao longo do julgamento: sabemos bem a ideologia que essas empresas representam...
Tirania do poder econômico, ultraje à igualdade política, plutocratização do sistema, rabo preso dos representantes: Fux ia longe no seu voto, e não só na questão das empresas. Defendeu que também se limitem as doações de pessoas físicas e até o uso de recursos dos candidatos nas próprias campanhas.
Teori Zavascki pediu vista do processo; mas nada impediu um cansado Joaquim Barbosa de anunciar ainda ontem seu voto, apoiando e radicalizando alguns detalhes de Fux, com críticas maiores ao Congresso.

Trata-se de evitar o "toma lá, dá cá", resumiu. Se o STF seguir essa tendência, é provável que a dureza de suas decisões no mensalão acabe parecendo fichinha no futuro.

sábado, 7 de dezembro de 2013




Momentos históricos da Primeira Guerra Mundial retratados em vídeo da Cinecittá, cinema italiano.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

"Geração Canguru"

Entre os fenômenos de destacados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chama a atenção o crescimento da chamada “geração canguru”, termo usado para designar jovens de 25 a 34 anos que ainda vivem na casa dos pais. De 2002 a 2012, a proporção de jovens neste segmento passou de 20% para 24%.
A coordenadora da pesquisa, Ana Lúcia Saboia, diz que o fenômeno, recente e ainda pouco estudado no Brasil, vem seguindo uma tendência já observada nos países da Europa e pode ajudar a entender as mudanças ocorridas nas famílias no País.
A decisão de morar com os pais, segundo Saboia, pode se basear em justificativas e explicações diversas que envolvem desde questões financeiras (desemprego, custo habitacional), às questões psicológicas (comodismo, a chamada Síndrome de Peter Pan) e mesmo sociodemográficas (queda da taxa de fecundidade, aumento da idade ao casar, aumento do número de divórcios e separações conjugais), envolvendo diferentes graus de dependência econômica e familiar.
Porém, a questão central que recai sobre essa nova “geração” é que a opção de morar com os pais é feita de forma voluntária, uma vez que esses jovens possuem rendimentos e, no geral, alto grau de escolaridade. “Isso é fruto de vários adiamentos. Adiamento da idade para casar, do momento de ter filhos, de deixar a escola”, explica.
A geração canguru é formada 60% por homens e é maior na região Sudeste – 26,7% - , contra os 15,9% observados na região Norte. Outra diferenciação importante dentro desde fenômeno é a renda. Do total de jovens em arranjos familiares com parentesco, cerca de 11,5% possuíam filhos entre 25 e 34 em casa. Nos arranjos com renda per capita de até meio salário mínimo este número passa para 6,6%, chegando a 15,3% nas famílias com renda entre dois a três salários mínimos per capita.

domingo, 13 de outubro de 2013

Análise sobre avanços sociais nos governos do PT e PSDB

A seguinte matéria foi publicada no site do Yahoo no dia 13 de outubro, acessado às 09:45. Penso que seja interessante para analisar as lutas ideológicas estabelecidas entre os partidos políticos no Brasil:

"BRASÍLIA - Os especialistas em políticas sociais do PT e do PSDB fazem análises diferentes dos avanços obtidos de parte a parte nas duas últimas décadas. Professor da Unicamp e presidente da Fundação Perseu Abramo, que é ligada ao PT, o economista Márcio Pochmann avalia, por exemplo, que o aumento no consumo de bens como geladeira, televisão e máquina, ocorrido nas duas décadas, ainda que em níveis distintos, tem razões diferentes:
- Nos anos 90, a modernização se deu pela abertura comercial, que fez com que tivéssemos a entrada de muitos produtos importados baratos, associados à estabilização monetária. Não houve necessariamente o efeito renda. Tivemos um déficit comercial violento a partir de 1996. Na década de 2000, o efeito se deu mais por emprego, renda e crédito. E por ter sido o efeito emprego renda o impacto na desigualdade, e na pobreza foi maior.
Ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) durante o governo Lula, Pochmann considera que o posicionamento do governo do PT em relação ao salário mínimo e às leis trabalhistas foi decisivo para obter o avanço na renda e na formalização do emprego:
- Embora os empregos fossem de menor remuneração, ela subiu por causa do aumento do salário mínimo. Teve também um fato diferente que foi o ativismo sindical. O resultado dos acordos coletivos na década de 1990 foi pior, enquanto no governo Lula os salários subiram acima da inflação. Nos anos 1990, a lógica nas relações de trabalho era de flexibilização, havia uma quantidade enorme de empregos terceirizados e a perspectiva de mudar a CLT, o que levou a um crescimento da informalidade. A partir de 2003, a perspectiva foi de aumentar a fiscalização e houve intenção clara do governo de que a CLT não seria alterada e que os contratos deveriam ser feitos com base na CLT.
'Núcleo duro da exclusão'
O professor afirma também que os méritos nos avanços educacionais não são exclusivos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso:
- Acredito que a responsabilidade maior tenha sido da Constituição de 1988, que estabeleceu as condições concretas para que o Brasil pudesse buscar a universalidade ao menos no ensino fundamental. No governo Lula, está praticamente atendida - afirma, fazendo raciocínio semelhante em relação ao avanço nos serviços: - É preciso analisar com detalhe, mas na medida em que vai atendendo a todos, o que falta é o núcleo duro da exclusão. Possivelmente é mais fácil avançar o saneamento em cidades médias e grandes do que em municípios mais distantes.
Coordenador de políticas sociais do Instituto Teotônio Vilela, ligado ao PSDB, o deputado Eduardo Barbosa (MG) ressalta a importância de se demonstrar que os avanços em boa parte dos setores teve início ainda na década de 1990:
- O que a gente precisa desmistificar é a ideia de que o Brasil começou a partir do governo Lula. Isso é mentira. Os números mostram uma consequência de resultados que começaram lá atrás e que possibilitaram um planejamento de políticas públicas universais, na Educação e na Saúde, que trouxeram impacto na vida das pessoas.
Na avaliação do tucano, embora os indicadores de desigualdade tenham caído nos últimos anos, é preciso se criar uma nova visão sobre o que é a pobreza. E destaca a importância dos serviços básicos de saneamento e abastecimento de água, que evoluíram na gestão tucana, para melhorar as condições de vida dos mais pobres:
- Temos de ampliar o conceito de pobreza. Não podemos dar uma falsa impressão para a sociedade e para a população que precisa da política de transferência de renda. A situação de pobreza não pode estar centrada no foco de renda per capita. Esse conceito depende de políticas estruturantes, como saneamento.
Estabilização da moeda
Assim como Pochmann, no entanto, Barbosa considera que os avanços obtidos nos governos do PT em relação à redução do desemprego não podem ser creditados apenas aos méritos do ex-presidente Lula, mas sim à estabilização da moeda no governo Fernando Henrique:
- A questão da estabilidade econômica possibilitou a empregabilidade com ascendência. É consequência, ninguém gera emprego da noite para o dia. Os dados mostram que não foram muitas vezes os investimentos públicos que geraram esse emprego. (Paulo Celso Pereira)"

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tecnologia Dolby

O americano Ray Dolby, criador da tecnologia "surround", morreu nesta quinta-feira, aos 80 anos, em sua residência em San Francisco, anunciou sua empresa, a Dolby Laboratories.
Dolby sofria do Mal de Alzheimer e foi diagnosticado em julho passado de uma leucemia aguda, disse a empresa em um comunicado.
"Hoje perdemos um amigo, um mentor e um verdadeiro visionário", disse Kevin Yeaman, presidente de Dolby Laboratories.
"Dolby fundou a companhia (em 1965) com o compromisso de criar inovação e com a crença de que investindo nas pessoas e lhes dando as ferramentas elas criarão grandes coisas".
Nascido em Portland, Oregon, em 1933, Dolby trabalhou em vários projetos de áudio e instrumentação e dirigiu o desenvolvimento do primeiro sistema de gravação em fita, na Ampex Corp.
Ao fundar sua empresa, Dolby se concentrou em desenvolver sistemas de som, a exemplo do "surround", que serviu de base para muitas das modernas tecnologias de áudio.
Durante sua vida, Dolby registrou mais de 50 patentes nos Estados Unidos e, atualmente, milhares de filmes e bilhões de produtos eletrônicos usam a tecnologia de som Dolby.
Dolby deixa a mulher, Dagmar, os filhos Tom e David, e quatro netos.

sábado, 31 de agosto de 2013

A classe dominante quer manter o país no conservadorismo para manter sua hegemonia

O texto a seguir apresenta uma visão interessante, 


sobre a chegada dos médicos cubanos ao Brasil. Ele 


deixa claro que uma classe burguesa histórica 


desse 


país, não aceita perder seus privilégios, 


conquistados sobre o sangue e o suor das classes 


mais pobres do Brasil. As pessoas precisam 


entender o que está acontecendo. Uma elite 


dirigente burguesa desse país quer deter o poder 


econômico e não estender a cidadania e a 


dignidade 


para a população pobre, pois isso seria um risco 


para seus interesses. No entanto são contra que 


ações do Estado atendem ao cidadão popular. 


Leiam a reportagem e tirem suas conclusões.


O debate sobre a chegada de médicos cubanos é vergonhoso.

Do ponto de vista da saúde pública, temos um quadro conhecido. Faltam médicos em milhares de cidades brasileiras, nenhum doutor formado no país tem interesse em trabalhar nesses lugares pobres, distantes, sem charme algum – nem aqueles que se formam em universidades públicas sentem algum impulso ético de retribuir alguma coisa ao país que lhes deu ensino, formação e futuro de graça. 
Respeitando o direito individual de cada pessoa resolver seu destino, o governo Dilma decidiu procurar médicos estrangeiros. Não poderia haver atitude mais democrática, com respeito às decisões de cada cidadão. 
 
O Ministério da Saúde conseguiu atrair médicos de Portugal, Espanha, Argentina, Uruguai. Mas continua pouco. Então, o governo resolveu fazer o que já havia anunciado: trazer médicos de Cuba. 
 
Como era de prever, a reação já começou.
 
E como eu sempre disse neste espaço, o conservadorismo brasileiro não consegue esconder sua submissão aos compromissos nostálgicos da Guerra Fria, base de um anticomunismo primitivo no plano ideológico e selvagem no plano dos métodos. É uma turma que se formou nesta escola, transmitiu a herança de pai para filho e para netos. Formou jovens despreparados para a realidade do país, embora tenham grande intimidade com Londres e Nova York. 
 
Hoje, eles repetem o passado como se estivessem falando de algo que tem futuro. 
 
Foi em nome desse anticomunismo que o país enfrentou 21 anos de treva da ditadura. E é em nome dele, mais uma vez, que se procura boicotar a chegada dos médicos cubanos com o argumento de que o Brasil estará ajudando a sobrevivência do regime de Fidel Castro. Os jornais, no pré-64, eram boicotados pelas grandes agencias de publicidade norte-americanas caso recusassem a pressão americana favorável à expulsão de Cuba da OEA. Juarez Bahia, que dirigiu o Correio da Manhã, já contou isso. 
 
Vamos combinar uma coisa. Se for para reduzir economia à política, cabe perguntar a quem adora mercadorias baratas da China Comunista: qual o efeito de ampliar o comércio entre os dois países? Por algum critério – político, geopolítico, estético, patético – qual país e qual regime podem criar problemas para o Brasil, no médio, curto ou longo prazo?
 
Sejamos sérios. Não sou nem nunca fui um fã incondicional do regime de Fidel. Já escrevi sobre suas falhas e imperfeições. Mas sei reconhecer que sua vitória marcou uma derrota do império norte-americano e compreendo sua importância como afirmação da soberania na América Latina.
 
Creio que os problemas dos cidadãos cubanos, que são reais, devem ser resolvidos por eles mesmos.
 
Como alguém já lembrou: se for para falar em causas humanitárias para proibir a entrada de médicos cubanos, por que aceitar milhares de bolivianos que hoje tocam pedaços inteiros da mais chique indústria de confecção do país? 
 
Denunciar o governo cubano de terceirizar seus médicos é apenas ridículo, num momento em que uma parcela do empresariado brasileiro quer uma carona na CLT e liberar a terceirização em todos os ramos da economia. Neste aspecto, temos a farsa dentro da farsa. Quem é radicalmente a favor da terceirização dos assalariados brasileiros quer impedir a chegada, em massa, de terceirizados cubanos. Dizem que são escravos e, é claro, vamos ver como são os trabalhadores nas fazendas de seus amigos. 
 
Falar em democracia é um truque velho demais. Não custa lembrar que se fez isso em 64, com apoio dos mesmos jornais que 49 anos depois condenam a chegada dos cubanos, erguendo o argumento absurdo de que eles virão fazer doutrinação revolucionária por aqui. Será que esse povo não lê jornais? 
 
Fidel Castro ainda tinha barbas escuras quando parou de falar em revolução. E seu irmão está fazendo reformas que seriam pura heresia há cinco anos.
 
O problema, nós sabemos, não é este. É material e mental. 
 
Nossos conservadores não acharam um novo marqueteiro para arrumar seu discurso para os dias de hoje. São contra os médicos cubanos, mas oferecem o que? Médicos do Sírio Libanês, do Einstein, do Santa Catarina? 
 
Não. Oferecem a morte sem necessidade, as pragas bíblicas. Por isso não têm propostas alternativas nem sugestões que possam ser discutidas. Nem se preocupam. Ficam irresponsavelmente mudos. É criminoso. Querem deixar tudo como está. Seus médicos seguem ganhando o que podem e cada vez mais. Está bem. Mas por que impedir quem não querem receber nem atender? 
 
Sem alternativa, os pobres e muito pobres serão empurrados para grandes arapucas de saúde. Jamais serão atendidos, nem examinados. Mas deixarão seu pouco e suado dinheiro nos cofres de tratantes sem escrúpulos. 
 
Em seu mundo ideal, tudo permanece igual ao que era antes. Mas não. Vivemos tempos em que os mais pobres e menos protegidos não aceitam sua condição como uma condenação eterna, com a qual devem se conformar em silêncio. Lutam, brigam, participam. E conseguem vitórias, como todas as estatísticas de todos os pesquisadores reconhecem. Os médicos, apenas, não são a maravilha curativa. Mas representam um passo, uma chance para quem não tem nenhuma. Por isso são tão importantes para quem não tem o número daquele doutor com formação internacional no celular.
 
O problema real é que a turma de cima não suporta qualquer melhoria que os debaixo possam conquistar. Receberam o Bolsa Família como se fosse um programa de corrupção dos mais humildes. Anunciaram que as leis trabalhistas eram um entrave ao crescimento econômico e tiveram de engolir a maior recuperação da carteira de trabalho de nossa história. Não precisamos de outros exemplos. 
 
Em 2013, estão recebendo um primeiro projeto de melhoria na saúde pública em anos com a mesma raiva, o mesmo egoísmo. 
 
Temem que o Brasil esteja mudando, para se tornar um país capaz de deixar o atraso maior, insuportável, para trás. O risco é mesmo este: a poeira da história, aquele avanço que, lento, incompleto, com progressos e recuos, deixa o pior cada vez mais distante. 
 
É por essa razão, só por essa, que se tenta impedir a chegada dos médicos cubanos e se tentará impedir qualquer melhoria numa área em que a vida e a morte se encontram o tempo inteiro. 
 
Essa presença será boa para o povo. Como já foi útil em outros momentos do Brasil, quando médicos cubanos foram trazidos com autorização de José Serra, ministro da Saúde do governo de FHC, e ninguém falou que eles iriam preparar uma guerrilha comunista. Graças aos médicos cubanos, a saúde pública da Venezuela tornou-se uma das melhores do continente, informa a Organização Mundial de Saúde. Também foram úteis em Cuba. 
 
Os inimigos dessas iniciativas temem qualquer progresso. Sabem que os médicos cubanos irão para o lugar onde a morte não encontra obstáculo, onde a doença leva quem poderia ser salvo com uma aspirina, um cobertor, um copo de água com açúcar. Por isso incomodam tanto. Só oferecem ameaça a quem nada tem a oferecer aos brasileiros além de seu egoísmo.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Políticas neoliberais causam insegurança e "flexibilização".

O catedrático de Estudos do Desenvolvimento da Universidade de Londres, Guy Standing (Londres, 1948), publicou um ensaio que estripa os segredos da transformação social que está ocorrendo nos países mais desenvolvidos que, apesar de estar se configurando há décadas, com a explosão da crise financeira se acelerou "de modo catastrófico".


"O Precariado, uma nova classe social" desvenda os segredos desta recente sociedade dominada pelo nascimento de um coletivo "que não encontra respostas e que não se identifica com nenhum outro grupo estabelecido", declarou Standing em entrevista à Agência Efe.

Dominado por contratos temporários, insegurança e o temor constante de perder o emprego, o precariado se viu obrigado a mudar de mentalidade, na qual o pensamento cortoplacista, o estresse e o medo de perder o nível de vida substituíram a vontade de desfrutar o tempo livre.

O precariado não é só produto de retalhos desalinhavados, é um coletivo infectado por uma doença endêmica dos países mais desenvolvidos: o déficit político e o suicídio do estado do bem-estar, que agora não permite diferenciar o trabalhador médio dos demais.

Os cortes e a era de austeridade, bandeira da maioria dos governos europeus, provocaram o renascimento de partidos neofascistas que empregam discursos de ódio como força motriz de suas campanhas políticas e que, nas palavras de Standing, acabarão com todo o conhecido.

"São discursos que prometem 'felicidade' a uma 'maioria' e culpam a minoria por erros do próprio governo, cimentados no medo e produtos de uma classe política sem escrúpulos", continuou Standing, que assegurou que esta tendência terminará por desaparecer.

Discursos populistas que se mostram "hostis com os imigrantes, os homossexuais, inconformistas e, seguramente, com você e comigo, mais cedo ou mais tarde", opinou.

Os jovens enganados

Mas a situação precária também afeta os universitários formados, muitos dos quais se sentem "enganados" por terem entrado em um sistema que lhes prometia trabalho certo e que, no entanto, lhes joga ao desemprego.

"Obviamente trabalhar em um supermercado não é o emprego da minha vida, mas é o único que posso aspirar nesta situação", disse à Efe Francisco, estudante espanhol prestes a se formar em Biologia na Universidade Complutense de Madri, que após quatro meses em uma rede de supermercados retornou ao desemprego.

"Estudo apenas duas disciplinas ao ano enquanto trabalho para poder pagar o crédito da universidade que sobe a cada ano", afirmou  outro estudante. Universitários em trabalhos sem vocação, bolsistas sem garantias, e adultos incapazes de abandonar a casa dos pais por medo da incerteza também fazem parte do precariado.

"Uma juventude frustrada que acredita que comprou um bilhete de loteria quando foi exigida a estudar para construir uma carreira", comentou Standing. Para o economista, estes jovens são as principais vítimas da crise, que convivem submetidos a pressões psicológicas. 

O precário está vivendo uma nova doutrina de choque. Aversão, frustração e alienação são outros dos sentimentos dominantes do precariado.

No entanto, trabalhar sem receber ou receber muito pouco não lhes transforma em precários. Deste modo, Standing diferencia os estagiários e os demais trabalhadores. "O estagiário está lavrando seu futuro, é consciente dos abusos que sofre, mas o aceita porque é a única maneira de progredir em seu trabalho", explicou Standing no livro.

Enquanto para uns o trabalho temporário é uma oportunidade de fazer carreira, para outros é uma forma de morrer na tentativa. Muitos identificarão esta situação com o arcaico período industrial e acharão que o precariado recupera o sentido de proletariado, mas não poderiam estar mais longe da realidade.

Revolucionar o futuro


O proletariado era um "privilegiado" com relação ao precariado. Tinha certa segurança em seu posto de emprego e renunciava aos direitos sociais em troca de um trabalho fixo que lhe permitisse experimentar um aumento de seu nível de vida.

No entanto, "o precariado sofre toda a pressão da flexibilidade salarial: salário baixo, variável e imprevisível", escreveu Standing sobre uma classe social que não sabe onde estará amanhã.

"A insegurança crônica que vive submete o precariado a um estado de ansiedade constante, está alienado porque não trabalha no que deseja e está furioso com uma sociedade que lhe apresenta um futuro sem futuro", destacou Standing.

No entanto, não é momento para a compaixão. Todas as revoluções sociais se cimentaram sobre a ira e a dor e, desde 2011, os movimentos revolucionários ressuscitaram em vários países.

"A energia das ruas é o motor do progresso", assinalou Standing. Desde as primaveras árabes até os indignados de Madri, todos eles batalham contra a precariedade, imposta a golpe de ferro em todos os países do mundo, lutam por políticas progressivas às quais Standing define como "políticas do paraíso".

Antes símbolo dos países mais subdesenvolvidos, a pobreza social chegou aos motores industriais, ao coração do mundo. "Um dos principais motivos pelos quais o precariado surgiu nos países mais industrializados foram as pressões exercidas pelo crescimento de estados como China e Índia, países dominados pelo precariado", explicou Standing.

Este sistema terminou com o princípio de solidariedade social, se é que alguma vez existiu, embora Standing considere que está se iniciando um processo de transformação "global", que propiciará a "criação de uma agenda progressista que recolherá as reivindicações do precariado."

Alguns poderiam crer que "O precariado, uma nova classe social" é outro livro nascido das entranhas da crise. Mas este ensaio sociológico reflete o nascimento de um coletivo que já tomou forma. Para Standing, todos somos precariados e esta realidade "nos permite deixar para trás a vergonha para dizer orgulhosamente que nós também fizemos parte deste grupo".